Lembro-me de quando costumava ser uma personagem literária. Daquelas que acreditam em principes encantados e esperam eternamente. E daquelas que sofrem, sofrem bastante e dão apologia a isso. Antes encarava cada pessoa que entrava na minha vida como um objecto precioso, que tinha de agarrar com força e não deixar ir. Depois, quando desapareciam, como tudo o que vem, chorava. Chorava por elas ou por mim, nunca percebi bem, mas sempre que alguém saía, parecia que levava consigo uma parte de mim, que eu precisava bastante.
Sei que pode parecer um pouco nostalgico de mais, mas acredito nessa teoria das pessoas levarem pedaços de nós. Quando conhecemos alguém, damo-nos a conhecer, partilha-mos um pouco de nós, que depois naturalmente se vai embora com essa pessoa. Mas também acredito no recíproco. Quando conhecemos alguém, ficamos sempre com uma lembrança dessa pessoa, que deixa um bocado de si em nós. É como uma espécie de troca. E eu acho que me tornei coleccionadora.
Com o tempo, começei a encarar tudo isso como uma coisa natural. As pessoas vão e vêm, por mais que nos custe há de ser sempre assim. Então lentamente fui-me habituando e penso que cheguei a um ponto de não me envolver demasiado. Ou antes, envolver até me envolvo, mas quando chega a altura do adeus, não me afecta. Por isso não gosto de despedidas. Não vale a pena dizer que não acaba, quando lá no fundo sabemos que vai acabar, não queremos é admitir, porque temos medo. Por isso não me despedi de ninguém, falei com todos normalmente, como se o ultimo dia que estivesse com eles fosse apenas mais um dia, como se os fosse ver no dia seguinte.
Eles estão cá todos. E isso, vão ficar para sempre, num lugar bom ou mau. E depois vou ver as fotografias e aí vou esboçar um ténue sorriso. Eram os meus amigos. Uns continuam, a maior parte desaparece. Foi uma informação adquirida logo quando os conheci. Sabia que ia ser assim, eles sabiam, então, nada de surpresas.
E agora, depois de tudo isto, depois de conseguir tornar-me assim, surgem alguns precalços. Dois ou três. Penso na eternidade que vem aí e da qual não fazem parte e não sei o que me vem a cabeça. Vieram de surpresa, não os esperava. E agora vai restar a saudade. Saudade contra a qual não posso lutar, não vale a pena sofrer.
Ouviste? Não vale a pena sofrer.
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